sou meio vagabunda, mas sou boa pessoa #214
A IA não é o futuro
Não é fácil ser um humano — Reject Modernity, Embrace Tradition
Quem não se encanta com a arte está morto por dentro. Quem acha que qualquer coisa gerada por um computador a partir de alguns comandos de programação é arte, morreu por dentro e o espírito voltou como um zumbi. Achar que algo feito pelas mãos de um artista é igual ou inferior a uma imagem gerada por IA é um atestado de fim da humanidade. Nada supera o que a gente faz com as próprias mãos, nada ultrapassa as ideias que temos de forma orgânica, com o cérebro fazendo as suas sinapses e a cabeça esquentando de tanto pensar. Essas coisas básicas que constituem um ser humano.
Há algumas semanas, a youtuber Lindsay Nikole começou a publicar uma série de vídeos sobre a história dos humanos, desde as primeiras espécies de hominídeos até chegar no homo sapiens — ou seja, nós. No último vídeo publicado, ela chega finalmente na nossa era, explicando como o homo sapiens surgiu no Norte da África, se espalhou pelo Oriente Médio, pela Europa, pela Ásia, até ocupar o globo todo. Quando surgiram as características que tanto definem a nossa espécie? Que sinais da existência desses “homo” primordiais conseguimos encontrar? Desde quando “estamos” aqui? 10 mil anos já é pouco, falamos de, no mínimo, 50 mil anos de existência humana. Tenta fazer caber nesse cérebro cansado aí o que significam 50 mil anos de história. É tempo pra caralho, e nesse período já existiam pessoas com a mesma constituição física e capacidade mental que você. Doido, né?
Uma coisa que ainda é um mistério para os cientistas é estabelecer quando passamos a ser uma espécie que produz arte, algo que vai além das tarefas básicas para manter a nossa sobrevivência (caçar, criar filhos, evitar servir de alimento para animais etc.). A partir de quando começamos a contar histórias, a filosofar, a fazer música, a pintar, a representar o mundo através das nossas habilidades manuais e psíquicas? Outras espécies, como os neandertais, por exemplo, tinham tal capacidade? Por que só nós sobrevivemos e evoluímos para uma sociedade dominada pela tecnologia? Partimos de um mesmo ancestral, mas seguimos caminhos totalmente diferentes do considerado “natural”. É o antropoceno, bebê, agora o inimigo somos nós.
É essa capacidade de criação que nos diferencia de qualquer outra espécie no mundo. Não to dizendo que somos melhores, muito longe disso. Mas porra, a gente fez umas coisas fodas, né? O que descobrimos, o que construímos, o que pensamos, escrevemos, pintamos, compomos, tocamos. São coisas incríveis que deixam a gente de queixo caído, maravilhados com a capacidade do nosso cérebro, com até onde podemos ir e o que nosso corpo pode produzir.
Mas agora, com as inteligências artificiais, sinto que estamos jogando 50 mil anos (ou mais) de evolução no lixo. Hoje qualquer cretino com uma assinatura de LLM acha que faz algo magnífico ao gerar uma ilustração capenga de um galo, passando preciosas horas selecionando aquilo que mais parece ter sido feito por um humano em meio a tanto lixo que a máquina gera. Essa galera gosta de dizer que o futuro é esse e não tem mais volta, a IA veio pra ficar, quem reclama é melhor se acostumar.
Semana passada mesmo uma creiça que se intitula artista de IA deu chilique na internet porque um pintor ousou “copiar” a sua “criação” (o tal galo) e colocá-la à venda por 7 mil dólares. Ela se sentiu plagiada, sua “arte” foi roubada pelo artista insensível que possui o monopólio das habilidades manuais. Monopólio de atividades manuais, é isso mesmo. Quem sabe fazer um trabalho com as próprias mãos é elitista na visão dessa gente que nunca parou pra refletir um tiquinho sobre como funciona a vida, engole qualquer explicação genérica (tipo religiões, sabe?) e acha maravilhoso toda bosta que uma máquina gera — assim como acha maravilhoso qualquer promessa de dinheiro fácil com pouco esforço físico ou mental.
Desculpa, mas eu jamais vou aceitar uma aberração dessas como algo normal. Nossa história como espécie se resume a construir e conhecer. Tentar e errar. Passar anos se aprimorando ou se dedicando a um projeto que permanecerá de pé 5 mil anos depois. O que escrevemos, o que pensamos, o que temos de registro desses milhares de anos de existência não se compara a um amontoado de pixels que simulam o que uma pessoa pode fazer. Não é possível que nós, como espécie, deixemos que isso aconteça só pra deixar um pequeno grupo de homens medíocres acumularem trilhões de dinheiros.
A IA pode servir para coisas positivas, eu sei, mas o que estamos observando é o esvaziamento da própria existência humana. É a ascensão da mediocridade, onde quem não sabe e não quer aprender a fazer ganha super-poderes para se intitularem ilustradores que não ilustram, escritores que não escrevem, músicos que não tocam, cantores que não cantam, modelos que não posam, apresentadores que não apresentam, etc. e etc. Não há benefício que essa tecnologia possa trazer que justifique uma adoção tão acrítica e burra.
O que vamos fazer com as habilidades que adquirimos nesses milhares de anos de evolução? Pros defensores da IA, temos que abdicar de qualquer conhecimento para nos igualarmos à mediocridade daqueles que são fracos ou burros demais para viver e fazer por conta própria. Esse é o futuro, aceitem e “aprendam” a usar a tecnologia que vai ditar os rumos da sociedade, senão você ficará pra trás.
Agora pergunto pra essa galera: se rolar um apagão — e vai rolar, porque mais gente usando IA significa mais energia sendo consumida pelos data centers, que vão sugar a rede elétrica que seria destinada a você, cidadão —, como você vai entregar aquele texto sem o ChatGPT disponível pra fazer? Deu pau no servidor da IA e você precisa entregar o relatório, e aí, vai conseguir fazer por conta própria sem essa mãozinha extra? Será que Natalia Beauty conseguiria mandar sua coluna a tempo para a Folha sem a IA? Bem, aparentemente essa aí nunca escreveu um texto, segundo a “denúncia” da ombudsman do jornal.
Porque a mente humana precisa se exercitar, precisa ser estimulada constantemente para memorizar informações, entender processos, saber o que fazer em determinada situação. Se você joga a responsabilidade dessa tarefa para uma “inteligência artificial”, você não está exercitando o próprio cérebro e vai terminar esquecendo como se faz a tal planilha. Não vai saber buscar uma informação na internet sozinho. Não será capaz de colocar no papel de forma coerente uma ideia, porque agora você só dita o que quer para uma chatgêpetê e ela “organiza” da maneira mais genérica possível.
Se você não lê, não será capaz de escrever. Se não treinar o traço, não vai desenhar. Se não aprender a tocar, não vai compor. Se não exercer nenhuma atividade de aprendizado e só jogar informação dentro de uma LLM, sinto lhe informar que você não está nem escrevendo, nem desenhando, nem fazendo arte, nem pesquisando, nem produzindo.
Porque fazer arte é difícil, assim como trabalhar é difícil e ser um homo sapiens é difícil. Cortar o processo, acelerar o tempo e delegar tarefas para uma “consciência tecnológica” para partir pra tarefa seguinte o mais rápido possível não é coisa de humano. Não pode ser.
Não haverá futuro se o futuro for esse. Vai deixando as coisas pra IA e perceba, em pouco tempo, como você fica mais preguiçoso, menos esperto, vai perdendo a capacidade de seguir uma lógica e de entender as instruções simples. Prova disso? Em dois anos da popularização dessas ferramentas, tem uma galera que diz não saber mais como trabalhar sem a ajudinha de uma IA. Essa galera acredita que não tem mais volta porque, pra elas, vai ser extremamente difícil voltar a fazer as coisas por conta própria, de tanto que já entregaram da sua própria capacidade mental pra uma máquina.
IA não é democratização. Democratizar informações, meios e habilidades é ensinar as pessoas a fazerem, é gastar anos e anos em formação, é dar liberdade para que as pessoas saibam pensar sozinhas. As IAs vão justamente contra isso. Com elas, você não aprende, não evolui, não adquire nenhuma habilidade nova além de bater-papo com uma máquina até ela entender o que você quer. Se vivemos 50 mil anos sem essa merda, a gente pode muito bem voltar para um momento da história em que essas ferramentas não existiam. É só você deixar de ser preguiçoso e colocar um pouco de bom senso na cabeça.
O que vai acabar com a humanidade é essa necessidade esdrúxula de fazer mais com menos e em tempo recorde, como se a vida fosse uma prova de 100 metros rasos. Pois saibam que não é. Acelerando a produtividade, cortando caminhos e delegando toda a responsabilidade e execução para a IA é cavar a própria cova. E uma cova rasa, que em breve vai deixar seu esqueleto exposto às intempéries climáticas, e de você não vai restar um osso, um fóssil, uma marca de que, em algum dia, você esteve aqui.
Nunca foi fácil ser um ser humano. Nunca foi fácil criar, trabalhar, aprender, construir. Ignorar essa dificuldade, o tempo que as coisas levam, os processos que devem ser seguidos, é renegar a própria existência. E diferente do que o mercado gosta de propagandear, não precisamos crescer constantemente, produzir mais e mais rápido. Esse é o caminho pro fim. Só haverá futuro para o homo sapiens se ele renegar a IA, não o próprio cérebro.
Só vou deixar aqui a mensagem do magdiel:
Ódios da semana
Saiu num jornal da gringa um artigo de uma “escritora IA evangelist” exaltando sua superioridade artística sobre os escritores de verdade porque ela “escreve” (gera) um livro por dia, e não um livro por semestre. Aí alguém deu RT nesse texto do Chuck Wending falando sobre essa atrocidade, e apenas amei o parágrafo inicial: “Dorothy Parker famously (but probably not really) said, “I hate to write, but I love having written,” which is a sentiment I don’t largely understand or agree with in the broader sense, but certainly have experienced during a kick-to-the-nuts writing day where the words arrive with the effort of trying to do proctology on a stampeding horse while both you and the horse are blindfolded. But as it turns out, there’s a sort of third level to this notion, one altogether more troubling and ultimately even less understandable: “I hate to write, I hate to have written, I mostly just want to be published.” Or, “I really just want to have money.” Or, “I actually want to just use as few keystrokes as possible to make my computer barf up stolen artistic authorial valor onto the internet in the hopes of charging absolute rubes a couple bucks for the narrative puke I hastily urged into a book-shaped pile.” Leia completo aqui.
A gente já tem medo de erro médico, mas agora podemos adicionar um novo medo: o erro medo causado pela IA. Isso porque um sistema utilizado por médicos para tratar sinusite crônica foi atualizado com inteligência artificial e, desde então, aumentaram os casos de erros durante as cirurgias: “The device had already been on the market for about three years. Until then, the U.S. Food and Drug Administration had received unconfirmed reports of seven instances in which the device malfunctioned and another report of a patient injury. Since AI was added to the device, the FDA has received unconfirmed reports of at least 100 malfunctions and adverse events.” De 7 denúncias, passou pra 100. Olha que belezinha o futuro que se avizinha. Leia mais aqui.
Eu simplesmente AMEI essa fofoca condominial:
Vocês ainda me verão falando muito mal de IA aqui ainda, pelo jeito, porque o negócio tá tenso e só tende a piorar.
Mas pra terminar com a vibe boa, fique com uma imagem da Dolores julgando quem usa ChatGPT:
Tchau!




São meia dúzia de empresas de tecnologia do vale do silício aumentando seu valor investindo elas nelas mesmas (uma centopeia humana da economia), todas com a pretensão de que, logo, encontraram a "Inteligência Geral", que livrará qualquer CNPJ da obrigação de pagar funcionários.
Sobre empresas que aumentam valores investindo elas nelas mesmas, até um adolescente sabe nomear isso: bolha financeira. Até um adolescente sabe onde isso termina: em 1930, ou em 2008.
Sobre computadores autônomos e super inteligentes que substituirão qualquer mão de obra humana, como se tudo o que qualquer humano fizesse fosse apertar botão, é de um conto de fadas tão crasso que só a ganância explica velho empresário de 60 anos acreditando.
Mas isso segue gerando essa demanda artificial de IA. IA em tudo. IA pra ler email. Ia pra responder um e-mail com "segue anexo". IA pra desenhar uma vaca malhada tocando trombone. IA pra ajudar uma mãe a criar uma brincadeira para a sua criança (Deus! Como é ridículo aquele comercial da Claro com a Giovana Ewbank!). IA, IA, IA.
Mas não dou 5 anos pra essa bolha estourar e, finalmente, termos descanso dessa tecnologia que está sendo empurrada como mãe empurrando brócolis no prato da criança. A IA não vai deixar de existir. Vai continuar servindo apenas para o que ela servir. Mas IA nenhuma irá desaparecer com irromper artístico da humanidade, que como bem observado no texto, nos diferencia de qualquer especie que pisa ou já pisou por aqui.
TEXTO MARAVILHOSO! E obrigade pela lembrança❤️❤️❤️