sou meio vagabunda, mas sou boa pessoa #209
Em 2025 fomos enganados por várias histórias
Coisas que enganam
Eu não planejava mandar uma edição no penúltimo dia do ano, porque sei que todo mundo tem mais o que fazer do que ler newsletter. Acontece que, nesses dias de folga, pude me dedicar ao que realmente sou boa: fazer nada e ler. E quando você lê livros maravilhosos, você fica com vontade de falar sobre eles. Fica com ideias que conectam a ficção com o que acontece no mundo. Linka essa ideia em pleno 31 de dezembro com coisas que aconteceram desde janeiro.
Guida, caríssima Guida, de Dinah Silveira de Queiroz (Instante)
Guida é uma mulher sedutora, inteligente, casada com um diplomata brasileiro e, por conta do emprego do marido, vive na Itália oferecendo ótimos jantares e buscando ítens que possam engordar seu inventário. Guida tem fama, tem uma fazenda que herdou do seu casamento, tem um filho de 20 anos que vive em Portugal e que não vê há anos, cuja ausência sempre é questionada por Marcos. Thomas, o filho, é mantido afastado pela mãe para que ela preserve essa aura de juventude conquistadora que desfila por Roma.
Tudo o que Thomas mais deseja é estar perto dos pais. Criado com toda a pompa do catolicismo que não combina com a sua época, os anos 1980, ele é um pobre rapaz deprimido pela distância de casa, e Guida não consegue mais refrear o desejo de pai e filho se reencontrarem. Quando ela parte de navio para o Brasil para resolver os negócios da fazenda, Thomas e Marcos se reencontram, agora certos de que passarão a viver juntos. Mas a vontade de Guida de seguir longe do filho e sua ganância são maiores do que qualquer amor paternal.
Para escapar do passado pobre que teve, Guida faz de tudo para conseguir o máximo que puder. Não existe amor no casamento com Marcos, que vive um caso com sua secretária, há apenas interesse: ter aquilo que, quando pequena, observou de longe e ansiou pertencer. Guida reconta sua história todos os dias, ela tem uma imagem a manter, uma visão de futuro que não será abalada pelas obrigações de mãe. E para conquistar isso, faz o inimaginável, comete o crime moral mais tenebroso para afastar o filho.
Segundo Dinah, Guida, caríssima Guida é o seu romance mais cruel “e seu final, talvez, o mais carregado de dramaticidade de tudo que escrevi”, e digo que é verdade. Não é um final que eu diga “uau, fui surpreendida”, mas é um final que não agrada àqueles que leem para encontrar conforto. O tipo de história que eu adoro.
A trilogia dos gêmeos, de Ágota Krisfóf (Dublinense, trad. de Diego Grando)
A frase “uau, fui surpreendida” veio ontem, enquanto terminava de ler A trilogia dos gêmeos, de Ágota Kristóf. Da espreguiçadeira à beira da piscina de um hotel em São Paulo — me deixa ser madame —, comentei com a amiga Carla como eu estava puta (de um jeito positivo) com essa trilogia. Explicarei.
Em O grande caderno, o primeiro livro, conhecemos Lucas e Claus, irmãos gêmeos deixados pela mãe aos cuidados da Avó para que escapem dos horrores da guerra (o país não tem nome, mas é ali naquela região da Europa que se fudeu na Segunda Guerra). A Avó é um carrasco, e para aplacar a saudade de casa e construírem uma couraça de proteção, esses irmãos de 4 anos de idade realizam uma série de exercícios: jejum para aprender a lidar com a fome, silêncio para serem deixados em paz, lutas para aguentarem a dor. Desde pequenos, trabalham na casa da Avó, aprendem a cozinhar, a cuidar dos animais, dos jardins, de si mesmos. E todo dia eles escrevem em folhas de papel com lápis tudo o que viveram, revisam e editam esses relatos par manter apenas o que é mais importante, que é copiado para grandes cadernos escolares.
A vida dessas crianças não é um morango. Primeiro, há um contexto de guerra, mas o pior é o abandono e a negligência dos adultos. Claus e Lucas são obrigados a sobreviverem sozinhos porque, se depender dos adultos, eles viram vítimas. Melhor ser o algoz do que a vítima para sobreviver neste mundão.
No segundo livro, A prova, vemos o início da vida adulta de Lucas, quem acaba ficando nesta cidadezinha agora tomada pelo país inimigo, enquanto Claus partiu para que concluam um novo exercício: viver separados. Lucas não vive sozinho, ele encontra pessoas vulneráveis como ele era aos 4 anos que passa a proteger. Ama mulheres, cuida de crianças, tem saudades do irmão gêmeo, de quem nunca mais ouve falar. Eles se separam aos 15 anos de idade, mas nesta cidade tomada pelos inimigos, muitos sequer lembram de Claus e pensam, até, que esse irmão gêmeo é uma invenção. Até que ele volta.
E é aí que a minha frustração de leitora veio, pois no início de A terceira mentira, o último livro, as coisas não batem com o que você leu lá no primeiro. Parabéns, você foi enganada pela literatura! Ágota Kristóf não quer te emocionar com a ligação desses irmãos, arrancar lágrimas com as tragédias de suas vidas. Ela quer é te dar uma rasteira com a narrativa. Ah, você estava achando que tudo isso aqui é real? Pois não é. Óbvio que não é, pois trata-se de ficção. Mas aqui temos que falar daquele “contrato” que existe entre autor e leitor: uma boa ficção te convence de que isso poderia ser real. É assim que uma boa história te envolve, com a verossimilhança e a quebra dela. Entendem por que eu fiquei puta? Porque a autora pregou uma peça em mim com sucesso. Gênia demais.
O que isso tudo tem a ver com as histórias que contamos em 2025?
Enquanto eu sacava para onde Ágota Kristóf me levava, sabendo que no final essa trilogia fala sobre como contamos uma história, talvez a nossa própria, era impossível afastar o pensamento de todas as narrativas que fizeram parte de 2025. Teve aquele podcast lá no começo do ano, uma nova narrativa de uma história de traição já conhecida, já contada em diferentes formatos e meios (só falta a telona dos cinemas), que fez uma galera comprar um único lado de uma história enquanto atacava quem não tinha nada a ver com isso (mulheres, devo ressaltar). Ninguém quis saber o outro lado, mas quando ele foi apresentado, de forma jocosa e raivosa, só aumentou a chama da revolta em quem acha que feminismo é lamber ferida de corno. A história quase se repete no fim de 2025 envolvendo outro podcast, mas aqui tínhamos mais provas para desmascarar o embuste.
Toda vez que eu liguei na GloboNews, coisa que fiz muito em 2025, vi os “jornalistas” falando sobre as narrativas do governo e as narrativas da oposição, sem especificar que a “narrativa” do governo é baseada em fatos concretos, enquanto a da oposição é, sim, uma narrativa, uma inversão de fatos para contar uma história. Aconteceu nos ataques contra Erika Hilton, aconteceu agora na finaleira do ano com Alexandre de Moraes, aconteceu no chororô dos bolsonaristas e do próprio Bolsonaro com a sua condenação. Sabemos como esse povo gosta de contar historinha para escapar da responsabilidade dos seus atos. A política virou isso: guerra de narrativas. E sambemos qual narrativa a mídia tradicional está comprando e revendendo quando trata fatos como mais uma história, mais um “ponto de vista”.
Agora mesmo teve a Brigitte Bardot, que morreu e, por ser branquinha, loirinha, gostosinha lá em 1960, tem passe livre para ser homenageada como protetora dos animais e ícone do cinema, apesar da xenofobia, racismo e homofobia destilados nas últimas décadas. É muito fácil comprar a narrativa da branquinha bonita que faz o bem, que luta pelo bem, que defende o bem (seja lá o que seja esse bem). Ela só deu uns tropeços no caminho, errar é humano. Olha só, ela gosta de animais, que nem aquela vereadora bolsonarista lá de Canoas que foi pega no pulo usando a causa animal como passe livre pra torturar animais. Meio que o que os cristãos fazem com a proteção das crianças e da família, sabe?
(Mas Serena, você também é branca! Sim, eu sou, por isso mesmo eu sei. É muito fácil eu dizer que fui enganada por um homem que me deixou de lado e ser vista como mais uma mulher emocionalmente enganada, coisa que já fiz muitas vezes. Mas é a narrativa que eu me conto no calor do momento, depois eu viro gente e assumo minha parcela da culpa.)
Aliás, houve mais homenagens para a francesa defunta do que para a mulher atropelada pelo ex-namorada e arrastada por ele. Isso não é narrativa, isso é fato. O aumento da morte de mulheres nas mãos dos homens é um fato, não um mimimi. Mas é claro que o homem padrão vai lamentar mais a morte da gostosa pra quem ele bateu punheta em 1990 vendo filme antigo do que olhar de frente para os crimes que os homens comentem de verdade — crimes reais, crimes tipificados em lei. Não basta sermos mortas, temos ainda que pedir com carinho que os homens não nos matem, né, Bosco? Aliás, ontem mesmo li no BlueSky o take errado de um homem dizendo que falar sobre red flags para mulheres vítimas de agressão é uma forma de culpabilizar a vítima. Claramente, ele tem medo de que seu modus operandi seja descoberto e não tenha mais efeito, mas vamos fazer parecer que estou preocupado com o bem-estar das vítimas para ninguém perceber.
Desde o advento das redes sociais, construímos narrativas sobre nós mesmos. Temos que vender uma imagem profissional, uma imagem pessoal, uma imagem que vá gerar engajamento. Essa imagem pode ser a de briguenta que comenta todos os assuntos e tem que dar a última palavra sobre pra galera comentar “nossa, que canetada” (e eu me incluo nesse grupo, tá? Faço meu mea culpa, sei que não deveria comentar coisas que nem são relevantes para a minha vida, mas hey, I HAVE OPINIONS). Tem a imagem da protetora dos fracos e oprimidos, que pega qualquer coitado chorando na internet para proteger os seus direitos de coitado. Tem a imagem de benfeitora que usa de seu privilégio para fazer turismo de caridade no meio do povão, filmando crianças desnutridas espantadas com sua pele alva e coxas grossas. Tem a imagem da garota solta, toda independente, que viaja sozinha para Nova York enquanto deve dinheiro para quem lhe prestou serviço. Tá todo mundo construindo uma narrativa aqui, para o bem ou para o mal.
São muitos exemplos de tuiteiros que construíram uma personalidade totalmente diferente da vida real lá dentro, é um passatempo até, essa de viver uma vida de mentirinha, de ser briguenta na rede social e uma covarde em casa. É daí que vem a endorfina que te mantém viva. Você se acha relevante, você ganha uma importância, mesmo que ela seja falsa e baseada em só mais uma narrativa que você escolheu acreditar. E olha como as narrativas são falhas, porque tudo o que escrevi aqui pode ser dito sobre mim mesma.
Aqui quero parecer mais inteligente do que sou, mais compreensiva do que a realidade, mais sábia do que o que realmente vivi. Eu acredito que eu sei ver um pouquinho além do que está na superfície e posso, também, estar enganada. Estamos todos numa guerra de narrativas, sejam elas públicas ou privadas, algo que você comenta numa rede social ou que escreve no seu diário que ninguém irá ler. A gente conta histórias, a gente procura ganhar vantagem com elas. O ser humano sempre foi assim, antes e depois da internet, mas essa ultra conectividade acarreta coisas que antes eram impossíveis de acontecer — tipo, todo mundo saber que seu apelido dentro de casa é Miojo, sabe? Galera, não precisa…
A gente confunde ficção com realidade, por isso fiquei puta com Ágota Kristóf. Por isso amei Ágota Kristóf. Posso não achar tão genial assim depois de um tempo, mas agora eu recomendo fortemente a leitura, assim como minha chefe Camila fortemente a recomendou pra mim.
Mas vamos focar em ser enganados pelas historinhas que são vendidas do jeito que elas são: apenas historinhas. Apenas ficção. Apenas um entretenimento. E cuidar com as historinhas usadas como armas de ataque. Nem tudo é do jeito que foi escrito, e as chances de você estar sendo feito de trouxa por quem conta essa história são grandes.
Já que é fim de ano…
Bora de indicações. Já que eu citei minha chefe Camila Fremder, deixa eu avisar que a Associação dos Sem Carisma está de volta! Mas dessa vez eu só monto o rolê, não serei colunista, mas sempre vai ter coisa boa na news porque é a Camila, né? Aliás, sempre vai ter indicações de outras newsletters lá dentro, então aproveita para ler e indicar a sua lá. ;)
É tradição de fim de ano ver o vídeo do Diva Depressão com a Márcia Sensitiva para saber como será o ano dos famosos. A gente vive da narrativa da vida dos outros, nunca neguei que gosto. Spoiler: Taylor será corna em 2026.
Cadê seu Top 10 livros de 2025, Taize? Pois vou pôr a lista aqui:
Querido Babaca, de Virginie Despentes (trad. de Marcela Vieira)De quatro, de Miranda July (trad. de Bruna Beber)
O céu da selva, de Elaine Vilar Madruga (trad. de Marina Waquil)
Orbital, de Samantha Harvey (trad. de Adriano Scandolara)Stay True, de Hua Hsu (trad. Rodrigo Neves)
O bom mal, de Samantha Schweblin (trad. de Livia Deorsola)
Histórias de amor do novo milênio, de Can Xue (trad. de Verena Veludo)
A trilogia dos gêmeos, de Ágota Kristóf (trad. de Diego Grando)
E um breve ódio da semana que quase esqueci de colocar aqui, mas teve o lance da Ria Livraria, que fechou depois que funcionários denunciaram que eles não tinham registro na carteira. E que raiva dá desse povo que fica passando pano pra gente cuzona só porque trabalha com livros. Se o cara pode distribuir 400 mil reais em prêmios em um “concurso literário", desculpa, ele pode registrar os funcionários. E se ele fechou a livraria, foi porque é birrento, é só regularizar e seguir o baile. “Ai, mas a livraria não dá lucro…” Vai trabalhar com outra coisa, então, porque livro não dá dinheiro mesmo. E assim: tem, como já falei em edições passadas, milhares de outras livrarias em São Paulo e centros culturais. Não é algo que vai fazer falta, sinceramente. E agora até saiu áudio do dono dizendo que o funcionário tinha que passar fome. Mas nossa, que dózinha do amante dos livros que teve que fechar seu barzinho, buá…
É isso. Tchau. Até ano que vem.





Taize, obrigado pela companhia em 2025!
Que 2026 venha radiante e livre — livre de tudo o que atrasa, oprime ou mente.
Que seja um ano abençoado, justo, leve e bonito, onde a sensatez e a verdade falem mais alto que os gritos da direita e dos bolsonaristas.
Que nos livremos, de vez, das confusões de quem insiste em atrasar o passo do nosso querido Brasil.
Feliz 2026, Taize! Que a vida te envolva com amor, saúde, boas risadas e muita paz!